Saturday, February 6, 2010

Noite


Noite escura, fria e tranquila.

Sozinho, vou pisando o solo, pintado de cores menos ténues que o habitual, e sem me aperceber vou destuando da tanquilidade do cenário.

Por mais pequenos que sejam os passos, o movimento diferencia o que estava sereno, intacto, imóvel.

O céu não está hoje pintado por estrelas próximas umas das outras, mas as que insistem em marcar presença, as que persistem em manter a sua assiduidade, são as mais especiais, as que fazem dos nossos olhos uma base neutra, salpicada de minúsculos pontos puros e encandeados.

A lua faz-nos companhia na nossa caminhada, como uma alma imperturbável e observadora, decora os nossos passos e segue-nos em céu aberto, por vezes completa, outras vezes recortada.

O vento insiste em perturbar o nosso termóstato com a sua temperatura encarnada no ar fresco que se faz sentir.

Não nos permite distracções, pois faz questão de nos recordar que também está presente e que constitui um elemento dominante da paisagem. Por essa razão, causa-nos arrepios e penetra-se-nos até aos ossos.

Na cidade, o ruídos sintécticos teimam em sobrepor o silêncio. Acto tão vão como inútil, pois a noite é implacável e impele-nos a adoptar uma atitude submissa às suas regras naturais.

Mas toda ela é fogaz e efémera, tal como as nossas vidas, embora não partilhemos da mesma capacidade regeneadora, que faz a primeira voltar imponente, sublime e poderosa ao fim de um dia.

Chega a manhã, clara e alva, enfraquece as defesas da noite e conquista-a. A noite retrocede e esconde-se na outra metade do planeta. Com passos lentos e duradouros, contorna o globo. Silenciosamente, planeja a sua estratégia e ao fim de horas volta ao modo ofensivo e, com a sua magia, desfaz o ponto final que a luz da manhã assinalou, subistituindo-o por um vazio, uma lacuna a preencher quando o ciclo recomeçar.